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terça-feira, 7 de julho de 2015

a mente é divertida?

Um filme de miúdos que todos os graúdos deveriam ver.
Que nos faz rir, que nos faz pensar, que nos faz (a mim fez) lembrar como foi ser criança e crescer, mas também que nos faz reflectir.
Procuramos tantas vezes a alegria imediata, quere-mo-la como certa na nossa vida, mas este filme mostra como em tantas situações a tristeza é um caminho para a alegria. Sem conformismos, claro, mas, quantas vezes perder, foi o nosso maior ganho no futuro? Um filme bem temperado com tudo aquilo que faz da vida o melhor tempero, os nossos sentimentos. 

segunda-feira, 29 de junho de 2015

travessuras de uma menina má


Não fosse o autor o Mário Vargas Lhosa e eu teria achado que, com este titulo, o livro se tinha perdido da secção de criança, mas não.
Um livro que fala do Perú, muito para além do Machu Picchu, que fala de um Perú de antes, de um Perú recheado de preconceitos e desigualdades sociais, de democracias distantes do direito, e do poder que não quer nada com o direito. Fala sempre no passado, mas ainda assim me baralha, obrigando-me a reler e constatar que afinal não é no presente, mas parece, quase podia ser. 
Mas estas memórias não são mais do que uma história que o narrador, o menino bom, nos tenta fazer crer que é de amor. A mim, deixou-me dúvidas. Não sei se é de amor a história que ele conta. É certo que tem abnegação, desprendimento de mão dada à paixão, e tem atracção sem explicação; mas não sei que amor é aquele em que há sempre dor e sofrimento, em que a luta é sempre de um e o poder de outro, que não do amor, mas sim de quem tem uma palavra a dizer, ou atitude a desempenhar, e sempre dela.
Até ao fim, para lá daquilo que nos transparece ser o limite dele, que é bem para lá do seu amor próprio, da sua dignidade, do seu direito a ser correspondido e admirado, idolatrado também, tudo nesta história, do fim ao seu principio, é conduzido e determinado por ela. De tal forma que reflicto, e não sei categorizar, se é ou não sobre amor, se houve ou não amor até, de ambas as partes, se chegaram estar, em simultâneo, apaixonados um pelo outro, não sei até, se ela chegou a estar apaixonada por ele, porque me questiono se quando parecia estar não era gratidão, e no final, quando dizia estar, se não era posse ou (in)segurança. Mas depois volto a questionar quem serei eu para dizer se é ou não amor, ou se houve amor. 
De uma coisa tenho a certeza, não há amor enquanto só há sofrimento e sofreguidão, enquanto qualquer detalhe espalha a dúvida e o pânico, como se fosse uma praga. 
Talvez seja mesmo uma história de amor, afinal das contas passa-se maioritariamente em Paris, e quão estranho seria um amor não conseguir existir na cidade do amor. Ou então não, seria a ironia perfeita, o anti-cliché, a história de como se vive toda uma vida preso a um desejo, a uma ilusão. Eu acho que o menino bom mente quando diz que tudo o que ambicionava da vida era viver em Paris, terá sido sim, quando ele decidiu abandonar o Perú, mas não mais, quando a conheceu, porque a partir de então, tudo o que ele queria era a ela.
E ela, a menina má? Ela nunca me pareceu má, até porque ela sempre foi muito honesta da sua desumanidade, vejo-a antes como um abismo majestoso, que seduz e amedronta, onde uns caem porque querem, como ele, e outros admiram por algum tempo e se deliciam com aquele limbo.
Decido, no final. manter as minhas dúvidas, prolongar o meu questionamento, porque, quantos serão os livros com título de livro infantil que nos fazem reflectir sobre aquilo que para nós, grandes e pequenos, temos de mais importante na vida, o amor? E deparando-nos nós com alguns exemplares, quantos existirão que nos devolvem incertezas nas respostas absolutas que procuramos? Pois é, só me sobraram reticências, também.
Ao misticismo do Perú, e da América do Sul, em geral, associado ao profundo génio do MVL, o meu obrigada. São livros assim que me fazem sempre voltar ao meu primeiro grande amor, as palavras. 

terça-feira, 7 de outubro de 2014

paixão desde adolescente

O Eça de Queirós foi o primeiro homem cujas palavras me fizeram perder o sono, para não perder palavra nenhuma, como se elas se fossem apagar com as horas. 
Conheci-o pessoalmente, tal como a larga maioria das pessoas com Os Maias, e fiquei rendida, apaixonada, embebecida... enfim. Lembro-me de quase ter feito directa no dia em que o comecei a ler, lembro-me de ser gozada por toda a gente por isso, de querer um João da Ega na minha vida, e de me rir tanto que o meu pai de vez em quando perguntava o que é que eu tinha. Hoje, diriam que era uma nerd, na altura era só uma caixa de óculos bem tótó, como combinava com o figurino. 
Eça, Conde de Resende, mais uma coincidência deliciosa que só fez aumentar o interesse. 
Ora, se o livro fez do Eça o autor Português do meu coração, com direito a receber toda da sua obra como presente da mãe por ter entrado na faculdade, a estreia do filme fez-me saltar do sofá, fugir do sono, do barulho das pipocas e ver o filme. 
E então? O filme faz honrar o livro, dá para acreditar?
Gosto de cinema mas, admito, não sou de todo cinéfila, nem entendida, ou tão pouco dedicada, mas já anteriormente, no filme do desassossego, o João Botelho me tinha feito render ao seu trabalho, obra, sensibilidade, jogo de luz sombra, tudo. Com Os Maias não foi diferente, o filme é como qualquer leitor apaixonado sonha que a sua obra seja tratada: com amor, profundo conhecimento, respeito, poesia e verdade. O filme que não pretendeu ser uma ridícula adaptação do antes ao agora, mas antes uma recriação quase teatral nos cenários, no uso do preto e branco e só depois das cores que nos marca o tempo, do guarda roupa, penteados, coches, tudo. O João Botelho filmou Os Maias quase, quase como eu o imaginei, e por isso estou-lhe profundamente agradecida.  E o João da Ega? Fiel e apaixonante, delicioso e divertidíssimo. 
Se estão na dúvida, o filme vale a pena. Acredito que muitos daqueles que não conseguiram ler o livro vão percebê-lo agora. A sátira do Eça está lá, e a actualidade dela também, porque o tempo passa mas a Portugalidade de que somos feitos não. Portanto, play:


quinta-feira, 17 de abril de 2014

o meu coração vai ser sempre teu


É teu o meu livro favorito, é a ti a quem devo uma vénia e eterno respeito. Devo ter lido todos os teus livros com pura paixão (excluindo o "Crónica de uma morte anunciada", assumo!) e aquela fome de palavras e letras que só quem gosta de ler entende. Acho que li tudo teu, mas agora que te perdemos, espero bem estar enganada. Conheci-te aos 17 anos, por intermédio de um amigo muito querido do secundário e com o tempo fui descobrindo o homem para além do escritor. Conforta saber que foste Nobel atempadamente, mas vou sentir muito a tua falta, Gabriel Garcia Marquez.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

na mesinha de cabeçeira

Não estavam a estranhar a ausência?  A A. estava, eu sei que sim, ela denunciou-me a sua curiosidade! E aqui está o motivo, um livro de crónicas! O que eu mais gosto num livro é a HISTÓRIA, e as crónicas para mim sabem, desculpem-me a comparação, a bitoquinha e não a beijo. Vamos todos ser sinceros, as crónicas sabem a pouco, e portanto deixam poucas saudades. Quem é que guarda na memória uma bitoquinha à pressa ao invés de um beijo com bê grande? Bom, eu não, desculpem-me o paralelismo. Gosto muito do MEC, de visão que ele tem sobre as coisas, mesmo as mais pequenas e prosaicas da vida, gosto de como é crítico e apaixonado, mas soube-me sempre a pouco. 
Obrigado P. por me emprestares o livro, mas eu gosto mesmo é que me contem histórias, daquelas em que me perco, por quem me perco.

p.s: vou demorar novamente a voltar porque, 
pior que escolher um livro de crónicas, 
só mesmo escolher dois, um depois do outro..

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Eça voltou à mesinha de cabeçeira

É trágico. 
Termina na Rua das Flores. 
É demasiado óbvio desde o primeiro capitulo. 
Eça, não sei o que te deu quando escreveste este livrinho.
Por sorte, foi o último da tua obra que eu li. 
Não te preocupes, eu sei perdoar. 
Serás sempre o Eça do meu coração!!!

sábado, 17 de agosto de 2013

na mesinha de cabeçeira mora: orgulho e preconceito


Este livro está há anos e anos na minha lista de livros a ler.
Valeu muito a pena esperar. Ainda valeu mais a pena ter resistido a ver o filme antes de ler o livro.
Um livro com 200 aninhos, mas arrojado. Fala-nos do ridiculo que é a fútilidade feminina, nas limitações das classes sociais... A Lizzy é uma  mulher muito à frente do seu tempo, muito segura de si, muito determinada nas suas convicções e princípios. Seria apenas mais um livro muito bem escrito e tremendamente envolvente, se não fosse um livro de ontem, que espelha o hoje.  
Quero mais Jane!



sábado, 3 de agosto de 2013

é amor de perdição, mas eu não me perdi por ele


Sou perdida por livros, e eles são, claramente, um grande amor na minha vida. Mas nunca consegui ler Camilo Castelo Branco, não sei é explicar porque. Tentei várias vezes ao longo dos anos, e finalmente nestas férias consegui, a muito, muito custo, mesmo. Mas já decidi, não vou repetir o esforço.
Imagino que várias pessoas se possam revoltar contra esta minha blasfémia, porque o CCB é um autor largamente reputado, mas gostos não se discutem. Agora que já li um livro completo dele posso afirmar que não somos compatíveis, o CCB e eu, há desamores assim também.
E esta história... não é de amor de perdição, desculpem-me, é de amor de desespero, amor de morte. Gosto de acreditar num amor menos funesto, senão não é amor, é tragédia.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

na mesinha de cabeçeira mora: Catarina de Bragança

Este livro, roubado à biblioteca da minha mana, pelo critério "livro com maior número de folhas", foi uma sorte.
Como não gostar desta Catarina? Uma Catarina tão arreigada à fé Católica, e ainda assim, tão surpreendentemente lúcida para o seu tempo? Um exemplo de fé pela tolerância, de fé sem culpa, e de como aprendeu que o prazer não é um pecado, é antes um direito.
É mais um exemplo de que os amores românticos são a pior sina, são tão projectados que a realidade nunca os poderá acompanhar.
Esta Catarina vive duas vidas, uma cá, onde nasce filha do Duque de Bragança, e cresce Princesa, filha do Rei de Portugal, e outra, longe, em Inglaterra casada com o Charles, Rei de Inglaterra, que gostava imenso dela, dela e de tantas outras. Uma Catarina a quem a vida privou do seu desejo maior, o de ser mãe e dar um filho legitimo ao seu Charles, que tinha já tantos, ilegítimos.
No final fica uma ternura por esta Princesa de Portugal, Rainha de Inglaterra, luz dos olhos de sua mãe, mas principalmente uma admiração por esta mulher que soube guardar sempre o bem, esquecer o mal, e envelhecer com amor, esta mulher pequena, trigueira e reguila, de quem ainda hoje se ouve:
«what are little girls made of?
Sugar and spice and all things nice, that is what little girls are made of.»

quarta-feira, 22 de maio de 2013

na mesinha de cabeçeira mora: teoria geral do esquecimento


Quant@s Ludo não há no mundo por aí? Alguém as fere de morte, sem as matar, e elas constroem muros que as separam, que as resguardam do mundo, atrás dos quais se escondem, para se proteger?
Há muros, como o da Ludo, de tijolos e cimento, e há os outros, de palavras, atitudes e silêncios. No fim, espera-se que a violência, que gerou isolamento, resulte em amor. Mesmo na guerra é o amor que nos liberta, sobretudo de nós próprios.
As palavras escritas pela casa  dela foram a sua memória, a sua companhia, o trilho que ainda a ligava até à lucidez.
Na Teoria Geral do Esquecimento, as palavras são fragmentos e flashes de memórias que, uma vez sequenciados, para a frente, a permitiram esquecer e curar, e para trás, nos deixam a nós lembrar e compreender.
 
P.S: é tão Lusa, esta Água, que o José escreve :) Adoro que ele consiga sempre escrever estes livros que ficam um bocadinho em mim, que deixam esta expectativa, de como será na próxima vez, quando eu me render ao seu dom, a escrita.


terça-feira, 7 de maio de 2013

na mesinha de cabeçeira mora: o amor é uma carta fechada

Comprei este livro sem grandes expectativas. Aliás, decidi-me por ele por ser um livro de bolso, e eu estava a precisar de um. Não costumo alinhar nestes livros que proclamam conter a verdade da vida. Mas valeu a pena, este acaso.
Diz por extenso, o que intuitivamente, vamos aprendendo com o tempo: o amor é uma construção.
Diz que quando estamos preparados encontramos o amor ao virar da esquina.
Mas, principalmente, diz assim "o medo de perder faz perder (...) é necessário ter a coragem de arriscar perder o que não se quer perder".  E eu acredito mesmo nisto, que é preciso coragem, porque mete medo, a entrega.
É sobretudo preciso coragem de não nos conformarmos com uma relação que não é de amor.

domingo, 10 de março de 2013

na mesinha de cabeçeira mora: Dentro de um segredo


Este livro foi lido num só fôlego, fiquei magnetizada ao primeiro olhar. É um livro muito diferente. Primeiro porque retrata uma viagem à Coreia do Norte, e isso, só por si, é raro. Depois porque é uma obra tão distinta das restantes do José Luís Peixoto, mas que, apesar disso, é tão dele.
È um livro de viagem, que nos transporta, para aquele que talvez seja o país mais fechado do mundo. Duplamente fechado, porque se fecha por dentro, não deixando entrar nada, nem sair nada de seu, e fechado por fora, pela comunidade internacional que lhe aplica sanções de faz de conta, para continuar a compactuar enquanto espectador passivo a mais uma terrível ditadura. Mais uma. E eu, que achava que a história mundial das civilizações, nos tinha ensinado que as ditaduras são ricas em atropelos aos direitos do Homem..
Mas no fundo, ele não conta segredo nenhum, ele conta como foi que o deixaram ver a Coreia do Norte, por que lente, sob que perspectiva. Um retrato de um pais tão feliz na sua passiva pacatez, que só pode ser mesmo de mentira.
Adorei o livro, adoro o JLP, mas cada vez me enoja mais esta conivência que permite a existencia ditaduras como estas.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

na mesinha de cabeçeira mora: O falador

Este livro morou na minha mesinha de cabeçeira muito tempo, talvez até demasiado. Começou por estar em lista de espera, mas nos longos 4 meses que demorei a lê-lo, foi atropelado por outros, que se impuseram! Mas não desisti dele, não gosto de desistir dos meus livros, nem que seja para reclamar deles no fim. O que não é o caso.
O falador é o terceiro livro do Mario Vargas Llosa que leio (o primeiro foi "O paraíso na outra esquina", seguido pelo " A festa do chibo"), e o terceiro que me deixa rendida. Vou ser redundantemente cliché e catalogar: adoro  os autores sul americanos. Adoro o universo deles tão exótico, místico, tropical e que me faz sempre viajar.
O falador retrata uma história que na Europa seria inverosímel, mas que, na mágica floresta amazónica é tão real. Podia dizer que, neste livro, o  meu querido Llosa fez do narrador a personagem principal, que retrata a dualidade do passado/presente, os universos cidade/selva. E seria verdade. Mas para mim é mais.
Este livro apresenta-nos uma personagem que é A entidade/identidade machiguenga. Fala-nos desta tribo, dos rituais, da lingua, das rotinas. Mas mostra-nos que aquilo que nos é tão estranho, aqueles que nos parecem tão diferentes, são no fundo, no fundo, tão iguais. Há uma tribo na floresta peruana que é tão paralela ao povo judeu. Nas crenças, no enraizamento das suas tradições, na inabalável fé, na diáspora como modo de vida.
E, afinal, quem é o falador? O falador é a memória de um povo e de uma cultura, o falador é o entretenimento de uma tribo, é o elo que une todas as famílias separadas pela diáspora. O falador é a alma deles, o guia, o que os torna únicos, o que os torna unidos. E a história conta como uma pessoa pode nascer e crescer no seio de uma determinada cultura social e religiosa e, na idade adulta, descobrir, no fundo da alma, que se é outro, que é novo, que é velho, que aprende, que tudo sabe. O falador fala de como nada é garantido, de como, um pormenor, numa conversa na selva numa noite tropical, pode alimentar a curiosidade de uma pessoa por toda a sua vida.
O falador fala de como todos somos diferentes e iguais, na mesma proporção, de como um dia podemos mesmo encontrar-nos connosco e sermos outro. E sermos mais felizes assim, garantidamente.