quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Comer por uma boa causa

Bake House Yangon



Uma das preocupações nesta viagem foi tentar praticar um pouco daquilo a que se pode chamar de turismo sustentável. 
Não sou um grande exemplo, e muito menos rígida neste aspecto, sobretudo em férias. Mas penso que se estivermos alertas, colocar em pratica não será difícil. 
Estratégias como comprar em lojas pequenas e familiares, usar taxis diferentes, evitar grandes empresas turísticas, usar guias locais, procurar lojas solidárias, não exequíveis, e enfim, tentar, pelo menos tentar, que o impacto do turismo possa ser mais positivo possível para quem lá mora. E principalmente atender à maxima  não dar o peixe mas ensinar a pescar. Seria fácil e cómodo ceder à tentação de dar dinheiro, sobretudo às crianças, que pedem, mas o que lhes estaríamos a ensinar? Que não precisam trabalhar, estudar ou esforçar-se para ganhar dinheiro, só mendigar. Dá que pensar.

Este restaurante-café pertence a uma associação que ajuda jovens mulheres a alcançar uma formação académica ou profissional proporcionando-lhes estrutura e um trabalho justo. Que delicia de bolos e de atendimento, mesmo. Vejam o site deles, onde contam como reescrevem histórias para terem finais felizes. 

Como agradecer o suficiente às duas funcionárias que no fim do seu turno, enfrentaram a monção por nós, nos emprestaram um guarda chuva e nos arranjaram um táxi? Mais uma vez, as pessoas sobressaem em qualquer flash de memória. 


Inle Lake, a beleza de um murro no estômago


Deve haver um adjectivo que se situe entre o murro no estômago e o deslumbre mas, por mais que pense, ainda não me ocorreu. Essa palavra faz-me falta agora. 
Como explicar a vivência daquelas pessoas? Como explicar os jardins e hortas suspensos, as casas construídas em estacas, as paredes de folhas entrançadas? Como caracterizar as janelas abertas de par em par, onde não passa uma brisa, a porta sem porta onde preparam a comida, conversam,  tomam banho vestidos com água do lago? Como dizer que as vi vazias de coisas, e fui olhada com um olhar e sorriso cheios de tudo? Não sei. 


Com uma extensão de 100km comprimento, e uma largura máxima de 5km (mais coisa menos coisa), o lago é casa e sustento de muitas famílias, que vivem nele e dele. 
Aqui não é como se o tempo tivesse parado é, antes de mais, uma realidade paralela, capsulada no tempo. O Inle revelou ser exuberante na sua riqueza natural e humana. 
Tudo é grande, longe e devagar. A uma hora de viagem de avião adiccionou-se uma de carro e outra de barco. Como se fosse um filme antigo em que alguém fez play.

A aldeia dos pescadores

Os pescadores a pescar de verdade 

As redes que usavam antes, e que hoje em dia são cenário para turista ver

Uma bomba de gasolina no meio do lago

As hortas flutuantes

As colheitas 

As vendas de rua

Os camiões sempre prontos para um arranjo no motor (funcionavam, eu vi!)

As crianças que nos olhavam entre o curiosas e o envergonhadas, e que, quando olhadas de volta, sorriam deliciosamente 
 
Trânsito no lago

O mosteiro onde dizem que treinam gatos (não vi nada), mas de onde queria ter trazido os tapetes todos!!

Este charmoso ficou meu amigo, e brincamos juntos. Tive sorte!

Uma das opções do passeio de barco eram as mulheres girafas, as que se veem aqui. Ora, como no ano passado não as cheguei a ver em Chiang Mai, e me haviam dito que elas eram naturais de Myanmar e viviam como refugiadas, achei que era uma oportunidade de as conhecer. Só que não. Na realidade, elas  não são daquela região. Ludibriada, percebi que estavam ali como bonecas amestradas, chamariz da loja de artesanato, e quase voltei para o barco. Mas já estava ali e elas olhavam para mim, para a minha hesitação e fiquei. Tentei falar com elas e viravam a cara ou responderam aborrecidas, perguntei se viviam ali. Não, não viviam. Então trabalham cá? Sim, desde os 9. Vão à escola? Não, ficamos aqui. E o meu coração ficou partido. Elas não queriam conversar, e eu não as sujeitei mais a isso. 

Uma delas estava, ao lado a tecer, diziam. Parecia encenação e eu não  acredito nesse teatro. 

Não percebo porque mas esta senhora atracou-se ao nosso barco, e não desistiu enquanto não vendeu. Olhei os olhos dela e não pude dizer que não. Fiquei tão atordoada com a insistência, quase em desespero, que se fosse agora tinha comprado na mesma, ou mais. O que fazer?

Estas casas por todo o lado 

Perdida numa aldeia à procura do mosteiro. Era Lua cheia, e ouvíamos os mantras a serem rezados sem parar. Queria ver como era o dia-a-dia das pessoas comuns, que não estavam em cena no teatro, apenas a viver as suas vidas. 

Um mercado, meio fechado,meio aberto, para as celebrações da lua cheia. 

Uma pequena Bagan no meio da selva. Arrepia como ali, no meio do nada, há dezenas de estupas, claramente umas bem antigas do que outras, e que ficam simplesmente ali. 

Este Buda a olhar e a resistir ao tempo passar. Até quando? 

Mesmo no meio do nada, ainda nem quero acreditar. 

As marionetas por todo o lado, são um símbolo da cultura deste país. 

A natureza a fazer-se vingar mais do que o Homem. 

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Bagan, os templos


À janela de um sonho de verdade.


Construídos gradualmente entre o séc IX e XIII os templos são usados diáriamente até hoje pela população. Por isso, visitar Bagan é fazer uma viagem no tempo, dar um mergulho profundo na cultura Birmanesa, e deixar o calor transpirar as nossas preocupações comezinhas e aprender.
Cheguei cá a saber que precisaria de um guia, mas sem nenhum marcado. Os astros alinharam-se quando o táxi que nos levou ao hotel foi o Li Ling, para os amigos e Sunshine, para os turistas! A viagem foi o suficiente para saber que queria continuar com ele. Ele disse que não trabalhava como guia, mas tinha um amigo guia, o Aung, que estava livre. Ia buscá-lo a casa e voltava já. Num impulso, em que sentes que o universo conspira a teu favor, ficou tudo marcado. Não poderei nunca dissociar o deslumbre de Bagan do Li Ling e do Aung. E por isso talvbez, nunca lhes possa agradecer o suficiente, mas mesmo assim, obrigada de coração. 
O Aung muito para além das horas e horas de aulas de história que nos deu, sabia sempre quando queríamos parar para beber água fresca sem precisarmos falar, carregou a minha mochila mesmo depois de eu ter dito que não era preciso, percebeu quando se alongar nas histórias e quando parar, escolheu as sombras para eu não derreter, e riu-se connosco vezes e vezes sem conta. Já tive vários guias, e acho o trabalho deles fundamental, tenho tido sorte com os meus, mas de alguma maneira, o Aung foi especial, super profissional e ao mesmo tempo tão afectuoso. Não nos impingiu nenhuma ronda por lojas e artesãos, moldou-se totalmente à nossa maneira de turistar. Além de que é um romântico terrível e super apaixonado pela sua Sweet Heart. Recomendo, muito! [link aqui para quem estiver a pensar ir deslumbrar-se para Bagan]


A primeira foto, o primeiro templo, lá em cima o Aung e eu a costurarmos à nossa medida, e lá em cima do templo, uma foto totalmente aleatória, e igualmente absorvente. 

Salamani temple, não sei se fico ou se saio, o chão escalda os pés e a pele. Um templo em forma de pirâmide egípcia com janelas a fazerem jogos de luz e sombras. 

A olhar o chão não para charme de foto de blog, mas porque quem anda descalça na penumbra não tem que querer calcar dejectos de morcegos!!!

Estas miniaturas de miúdos por todo o lado, enérgicos sob este sol, tão simpáticos e felizes. 

O início de uma grande aula de arquitectura, desenho e arte. Brincadeira minha, fotos ternurentas do Aung a ensinar-nos como distinguir os templos uns dos outros, sem precisarmos dele. Uma evolução da engenharia, e a história que o tempo conta através dela. 

Já não sei quem és tu templo, já só sei que gosto de ti. [Sorry Aung]

Hna Myet Nar , não aparece em guia nenhum mas queria um sítio sossegado e o Aung fez acontecer. Este foi o primeiro pôr-do-sol, o primeiro dia, com o mais perfeito companheiro de vida e viagens e aventuras, mas mal imaginava ele que o ia acordar, todos os dias às 5h da manhã, para ver o nascer do sol comigo. 

Desfocadamente feliz, será assim que vou guardar sempre estes dias.

Este fim de luz, as sombras e a imponência destas estupas. Como não amar?

A Lua a ficar cheia e a augurar boa sorte. Os Budistas celebram a Lua cheia e a Lua nova como os Cristãos celebram o Domingo. Foi arrepiante assistir a isso. 

Ananda e o seu dourado a estender-se até ao céu. Um céu que o envolve em algodão mágico. E Budas de 900 anos de idade que de perto são sérios e ao longe se riem para nós, juro!

Ananda visto pelo canto de um olho, por uma moldura de encanto bruto. 

Shwesandaw, ou o pôr-do-sol semelhante a festival de verão, impossível de desfrutar, e por isso, fiquei-me pela Lua cheia.

Ao segundo dia uma volta sem grande destino de bicicleta, entre pó e bozinadelas, uma quase-queda, um vento quente a bater no rosto e devo assumir publicamente que valeu a pena o esforço de pedalar ao calor e ver o dia a terminar.

Shavezigon, está em obras com a ultima obra da natureza que o pôs à prova, mas nem por isso perde o seu esplendor. 

A meditação nada tem que ver com religião Inês, disse o Aung, vou-te levar ao meu sítio favorito e vou ensinar-te. Como é possível que ele seja tão especial? Não consegui dobrar as minhas pernas como se fossem esparguete como ele, mas adorei a partilha, e pela primeira vez na vida, eu, a alma inquieta, fiquei com vontade de tentar mais. Quem diria?




















segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Bagan mágica



São kilometros de extensão, dizem que são mais de 3000 templos, e é um deslumbre que se estende até ao horizonte, até perder de vista. Chegámos de manhã cedo e a sedução começou no céu. 
Admito que Bagan era a menina dos meus olhos desta viagem, e tem sido um namoro muito feliz. 
Quando vi as primeiras fotos e descrições, decidi que não iria aprofundar mais a pesquisa, queria apostar tudo num encontro às cegas. Não tenho palavras suficientes para o que vi, e muitas dúvidas sobre se conseguirei descrever o impacto que causou em mim.
Mas posso assegurar-vos que a magia acontece com aquela luz, desde o nascer do sol até que ele se põe, a natureza, que ora invade ora comunga com os templos, e as pessoas. 
Sinto que vivi mil histórias em três dias, e ouvi muitas mais, mas agora deixo-vos com algumas fotos, que falarão por si, e por mim.









(acham que se nota muito que estou fixada na luz do sol?)